Como montar prancha de comunicação PECS passo a passo
Montar uma prancha de comunicação inspirada no PECS exige planejamento, figuras claras e atenção às necessidades da pessoa usuária. Entenda a finalidade do sistema, os materiais indicados, como selecionar palavras funcionais e por que a orientação profissional é essencial.
A busca por formas de ampliar a comunicação de pessoas com pouca ou nenhuma fala oral leva muitas famílias, educadores e profissionais a conhecerem pranchas com figuras. Entre as referências mais conhecidas está o PECS, sigla em inglês para Picture Exchange Communication System, ou Sistema de Comunicação por Troca de Figuras. Embora seja comum chamar qualquer prancha de figuras de “prancha PECS”, é importante compreender que o método possui uma estrutura própria de ensino.

Uma prancha de comunicação pode ser um recurso visual muito útil para apoiar escolhas, pedidos, compreensão de rotinas e participação em interações. Porém, seu valor não está apenas em imprimir imagens e colá-las em uma folha. Para funcionar no cotidiano, ela precisa representar itens relevantes para a pessoa, ser fácil de acessar e ser ensinada de maneira respeitosa, consistente e adaptada às necessidades individuais.
Este guia explica como planejar e montar uma prancha inspirada nos princípios da comunicação por figuras, quais cuidados tomar e como organizar o uso do material. A orientação de fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicólogo e equipe educacional, quando disponível, é fundamental para que o recurso tenha objetivos adequados e não substitua outras formas de expressão.
Entenda o que é PECS e o que é uma prancha de comunicação
O PECS foi desenvolvido como um sistema de comunicação alternativa baseado, inicialmente, na troca física de uma figura por algo desejado. A pessoa aprende que pode entregar uma imagem a um interlocutor para fazer um pedido e obter uma consequência comunicativa. O ensino é organizado em fases, com progressão planejada, apoio de parceiros de comunicação e observação do desempenho da pessoa.
Já uma prancha de comunicação é uma superfície — como folha plastificada, caderno, pasta, quadro ou aplicativo — que reúne símbolos visuais. Ela pode conter fotografias, desenhos, pictogramas, palavras escritas ou combinações desses elementos. Pranchas são usadas em diferentes abordagens de comunicação aumentativa e alternativa, não apenas no PECS. Por isso, usar figuras em uma tabela não significa, automaticamente, que a intervenção está seguindo o protocolo PECS.
Por que essa distinção faz diferença
Conhecer a diferença evita expectativas inadequadas. Uma prancha feita em casa pode apoiar a pessoa a apontar, olhar, entregar uma figura ou escolher entre opções. Isso já pode ser valioso. No entanto, se a intenção for implementar o PECS de forma estruturada, a família ou escola deve buscar capacitação e acompanhamento de profissionais que conheçam o sistema e possam avaliar a indicação.
Também é essencial não tratar a prancha como teste de capacidade, recompensa ou obrigação. A comunicação é um direito. A pessoa pode se comunicar por fala, gestos, expressões faciais, vocalizações, escrita, sinais, olhar, imagens, dispositivos eletrônicos ou por mais de um meio. O recurso visual deve somar possibilidades, e não restringir modos espontâneos de expressão.
“Nada sobre nós sem nós.”
Lema internacional do movimento de pessoas com deficiência
Defina a finalidade antes de escolher as figuras
O primeiro passo não é abrir um editor de imagens, mas observar situações reais. Pergunte: em quais momentos a pessoa demonstra dificuldade para ser compreendida? O que ela tenta pedir, recusar, comentar ou escolher? Em quais ambientes a prancha será usada? Uma prancha para o lanche tem necessidades diferentes de uma prancha para a sala de aula, para o banho ou para uma consulta.

Começar com objetivos cotidianos e funcionais torna o recurso mais significativo. Para uma criança, por exemplo, podem ser importantes alimentos preferidos, brinquedos, brincadeiras, pessoas próximas e ações como “mais”, “abrir”, “ajuda” e “acabou”. Para um adolescente ou adulto, podem ser mais relevantes transporte, trabalho, atividades de lazer, contatos, sintomas, preferências e decisões da rotina.
Faça uma observação prática da rotina
Durante alguns dias, anote tentativas de comunicação sem interpretar precipitadamente. Registre o que aconteceu antes, qual foi a ação da pessoa, como o interlocutor respondeu e se a intenção foi compreendida. Esse levantamento ajuda a selecionar palavras e imagens que tenham uso imediato.
- Itens que a pessoa procura, aponta, leva até alguém ou tenta alcançar;
- Atividades que costumam gerar interesse, prazer ou participação;
- Situações em que ela demonstra desconforto, recusa, dor ou necessidade de pausa;
- Pessoas e lugares importantes na rotina;
- Palavras que familiares e educadores usam repetidamente no dia a dia.
Inclua desde o começo opções para recusar e interromper interações. Figuras como “não”, “pare”, “não quero”, “espera”, “pausa” e “acabou” protegem a autonomia. Uma prancha composta só por pedidos de comida ou brinquedos limita o que a pessoa pode dizer e transmite a ideia equivocada de que ela só pode se comunicar para obedecer ou solicitar algo permitido por outra pessoa.
Materiais necessários para uma prancha física
Não é preciso adquirir materiais caros para iniciar um recurso visual simples. A escolha deve considerar segurança, resistência, portabilidade e o modo como a pessoa consegue manipular os cartões. Em alguns casos, figuras maiores, uma pasta rígida ou fixação com velcro facilitam o acesso. Em outros, uma folha única pode bastar para uma atividade específica.
Priorize imagens nítidas e um formato que resista ao uso diário. Plastificar cartões pode ajudar na limpeza e na durabilidade, mas não é obrigatório. Fotografias impressas em papel comum, protegidas em envelopes transparentes ou presas a uma cartolina, podem ser um começo viável quando há poucos recursos.
| Material | Uso principal | Cuidados na escolha |
|---|---|---|
| Fotos reais | Representar pessoas, objetos e ambientes conhecidos | Úteis no início quando a abstração de desenhos é difícil |
| Pictogramas ou desenhos | Representar ações, conceitos e vocabulário amplo | Use imagens simples, consistentes e fáceis de distinguir |
| Cartolina, papel cartão ou pasta | Servir de base para a prancha | Escolha tamanho compatível com o transporte e a visão |
| Velcro adesivo | Permitir retirar, trocar e entregar cartões | Verifique se a fixação é segura e fácil de manejar |
| Plastificação ou capa transparente | Proteger imagens do desgaste | Evite bordas cortantes e faça manutenção periódica |
| Argola, envelope ou fichário | Organizar cartões e categorias | Deixe o vocabulário acessível, sem excesso de etapas |
Se a pessoa tiver baixa visão, limitações motoras ou hipersensibilidades, o formato deve ser ajustado. Pode ser necessário aumentar o tamanho dos símbolos, reduzir a quantidade de opções por página, usar contraste mais alto, posicionar a prancha em suporte inclinado ou considerar recursos de acesso por olhar. Essas decisões devem ser feitas, sempre que possível, com avaliação especializada.
Como montar a prancha passo a passo
Uma montagem organizada facilita ajustes posteriores. Em vez de tentar criar uma prancha enorme logo no primeiro dia, comece com um conjunto pequeno de palavras altamente relevantes. O número de figuras depende da atenção, da visão, da coordenação motora, do repertório comunicativo e do contexto; mais opções nem sempre significam mais autonomia se o arranjo ficar confuso.

O processo abaixo serve para uma prancha física básica. Ele não substitui o treinamento das fases do PECS, mas pode ajudar na construção de um suporte visual personalizado para uso doméstico, escolar ou terapêutico.
- Escolha uma situação de uso: por exemplo, lanche, brincadeira, chegada à escola ou banho.
- Liste palavras funcionais: inclua itens desejados, ações, pessoas e opções de recusa ligadas àquela situação.
- Selecione imagens compreensíveis: use fotos da própria rotina quando elas fizerem mais sentido do que símbolos genéricos.
- Padronize o tamanho: cartões semelhantes facilitam a organização e a troca, se esse for o objetivo.
- Monte poucas opções por vez: distribua as imagens com espaço suficiente para apontar, pegar ou olhar.
- Identifique os cartões: acrescente a palavra escrita abaixo da imagem quando isso for adequado ao objetivo educacional.
- Teste na rotina real: ofereça o recurso quando houver uma razão autêntica para comunicar.
- Revise e amplie: retire imagens que não têm uso, substitua figuras confusas e adicione vocabulário conforme novas necessidades surgirem.
Exemplo de primeira organização
Em uma prancha para o momento do lanche, é possível iniciar com fotos de dois alimentos que a pessoa aprecia, uma bebida, “mais”, “não quero”, “acabou” e “ajuda”. Coloque as imagens em posições previsíveis e mantenha a mesma organização por algum tempo. Se o item não estiver disponível, não use a prancha para criar frustração desnecessária; explique a ausência por meio de fala, gesto e outro símbolo, como “não tem”.
À medida que a pessoa demonstra entender e utilizar o material, o vocabulário pode crescer. A ampliação precisa acompanhar interesses e ambientes reais. Acrescentar palavras de comentário, como “legal”, “engraçado”, “gostei”, “olha” e “de novo”, ajuda a afastar a prancha de um uso limitado a pedidos.
Escolha e organize vocabulário que amplie a participação
Um erro frequente é produzir dezenas de cartões de objetos, mas quase nenhum termo que permita formar mensagens variadas. Os nomes de itens são importantes, especialmente no começo, mas palavras de alta utilidade podem acompanhar a pessoa em muitos contextos. Termos como “quero”, “não”, “mais”, “ajuda”, “ir”, “ver”, “aqui”, “eu”, “você”, “bom” e “ruim” podem ter ampla aplicação, desde que sejam compreensíveis e relevantes.

Uma organização por categorias pode facilitar a procura: pessoas, alimentos, brinquedos, ações, locais, sentimentos, escola, saúde e rotina. Em pranchas maiores, use abas, cores ou páginas separadas com coerência visual. Não mude a posição das palavras de uso frequente sem necessidade, pois previsibilidade reduz esforço para localizar os símbolos.
Equilibre palavras específicas e palavras gerais
Fotos de “bola”, “suco” e “vovó” são específicas e podem ter grande valor afetivo. Já palavras gerais, como “quero”, “não”, “ir”, “mais” e “terminou”, ajudam a combinar ideias. O equilíbrio entre os dois tipos torna a comunicação mais flexível. A seleção também deve respeitar idade e interesses: não infantilize a prancha de um adolescente ou adulto com imagens que não correspondem à sua vida.
Para conhecer conceitos gerais sobre essa área, vale consultar a página da Educação Especial no Ministério da Educação, que reúne informações institucionais sobre inclusão e atendimento educacional especializado. Na escola, a prancha precisa ser vista como recurso de participação: ela deve acompanhar a pessoa em aulas, intervalos, atividades coletivas e avaliações, quando necessário.
Como apresentar e usar o recurso no cotidiano
Depois de montar a prancha, é preciso criar oportunidades naturais para que ela seja usada. Deixe o material ao alcance da pessoa, e não guardado em uma gaveta. Se for portátil, leve-o para os lugares em que a comunicação acontece. Quando o recurso só aparece durante exercícios formais, tende a perder significado na vida diária.
Os parceiros de comunicação têm papel decisivo. Familiares, professores, cuidadores e colegas podem apontar os símbolos enquanto falam, esperar uma resposta e confirmar o que entenderam. Essa prática é conhecida como modelagem: o adulto demonstra que a prancha é uma ferramenta legítima de linguagem, sem exigir que a pessoa a use imediatamente da mesma forma.
Atitudes que favorecem a comunicação
- Espere alguns segundos antes de responder ou repetir a pergunta;
- Ofereça escolhas reais, sem induzir sempre a opção preferida do adulto;
- Responda à tentativa comunicativa, ainda que seja um olhar, gesto ou aproximação da figura;
- Fale normalmente, sem retirar a linguagem oral do ambiente;
- Use a prancha também para conversar, comentar e brincar, não apenas para pedir;
- Mantenha o recurso disponível em diferentes locais da rotina.
Evite transformar cada uso em cobrança. Perguntas repetidas como “o que você quer?” podem pressionar a pessoa, especialmente se ela ainda está aprendendo a lidar com os símbolos. É mais produtivo comentar a situação, apontar opções e responder com interesse. Se houver recusa, cansaço ou sinais de desconforto, respeite-os e reveja o contexto.
A comunicação alternativa não impede o desenvolvimento da fala. Ela pode coexistir com fala, sinais e gestos, oferecendo uma via mais acessível para expressar ideias. A Associação Americana de Fala, Linguagem e Audição explica a área de forma abrangente em seu conteúdo sobre comunicação aumentativa e alternativa. Cada pessoa pode combinar recursos de maneira própria.
Cuidados, erros comuns e acompanhamento profissional
Uma prancha não deve ser usada para controlar comportamento, condicionar acesso a necessidades básicas ou ignorar sinais espontâneos de comunicação. Água, alimentação, banheiro, repouso, conforto e proteção não devem depender de desempenho em uma atividade de figuras. O recurso deve facilitar a compreensão e a expressão, jamais se tornar uma barreira.

Também é inadequado presumir que toda pessoa autista, com deficiência intelectual, paralisia cerebral, afasia ou outra condição precisa do mesmo conjunto de imagens. O diagnóstico isolado não define habilidades, preferências nem meios de comunicação. A avaliação individual considera aspectos de linguagem, motricidade, visão, audição, compreensão, ambiente e objetivos pessoais.
Quando procurar orientação especializada
O acompanhamento de um fonoaudiólogo é particularmente importante para avaliar necessidades de comunicação, selecionar estratégias e orientar interlocutores. Terapeuta ocupacional pode contribuir com adaptações de acesso, posicionamento e manuseio; profissionais da educação ajudam a integrar o recurso à aprendizagem; e outros integrantes da rede podem colaborar conforme a situação.
Procure ajuda se a pessoa demonstra frustração frequente por não ser compreendida, se não consegue acessar fisicamente a prancha, se as figuras parecem não fazer sentido, se há dificuldades sensoriais relevantes ou se a família e a escola divergem sobre o uso do recurso. Leve exemplos da rotina, vídeos somente quando houver consentimento e respeito à privacidade, e a prancha já testada para que o profissional observe pontos concretos.
Perguntas frequentes
Uma prancha de figuras caseira é igual ao PECS?
Não necessariamente. Uma prancha caseira pode ser um recurso de comunicação alternativa muito útil, mas o PECS é um sistema estruturado de ensino com fases específicas. Para aplicar o protocolo com fidelidade, é recomendável orientação de profissional capacitado.
Posso usar fotos em vez de pictogramas?
Sim. Fotos podem ser especialmente úteis para representar pessoas, objetos e locais conhecidos. Algumas pessoas entendem melhor imagens reais; outras respondem bem a desenhos simples. O melhor formato é aquele que a pessoa reconhece e consegue utilizar com facilidade.
Quantas figuras devo colocar na primeira prancha?
Não existe um número universal. Comece com poucas opções muito relevantes e aumente gradualmente conforme a pessoa demonstra compreensão, interesse e condições de localizar as imagens. Uma avaliação profissional ajuda a definir tamanho, quantidade e disposição adequados.
A prancha pode prejudicar a fala?
Não. Recursos de comunicação aumentativa e alternativa são usados para ampliar oportunidades de expressão e interação. Eles podem coexistir com fala, gestos, vocalizações e escrita. O foco deve ser garantir que a pessoa tenha meios eficazes de se comunicar.
Conclusão
Montar uma prancha de comunicação exige mais do que reunir figuras bonitas. O material precisa nascer da observação da vida real, incluir escolhas relevantes, respeitar recusas e estar disponível nos momentos em que a pessoa precisa participar. Fotos, pictogramas, cartões removíveis e páginas por tema são ferramentas possíveis, desde que façam sentido para quem vai usá-las.
Quando planejada com cuidado e incorporada por parceiros atentos, a prancha pode abrir espaço para pedidos, comentários, decisões e vínculos. Faça ajustes frequentes, valorize todas as tentativas de comunicação e busque apoio especializado para definir metas e adaptações. O objetivo central é simples e essencial: ampliar a possibilidade de a pessoa ser ouvida e compreendida.
Referências
- Ministério da Educação — Educação Especial.
- American Speech-Language-Hearing Association — Augmentative and Alternative Communication.
- Bondy, Andy; Frost, Lori — The Picture Exchange Communication System Training Manual.
- Conselho Federal de Fonoaudiologia — Informações institucionais sobre atuação fonoaudiológica.
Escrito por
Editor-chefe e redator
Editor-chefe do Higienista, escreve tutoriais e guias de tecnologia com foco em clareza, pesquisa cuidadosa e aplicação prática no dia a dia.